Google está treinando IA com suas fotos, áudios e vídeos — e você nem percebeu
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Maicon Ramos
- IA, LGPD, privacidade
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Resumo: O Google ativou por padrão o uso de fotos, áudios e vídeos enviados aos seus serviços para treinar IA, e não avisou claramente. Entenda o que mudou, os riscos para brasileiros e o passo a passo para desativar.
Em junho de 2026, o Google fez uma mudança silenciosa nas configurações de privacidade dos seus serviços de busca. Quase ninguém percebeu. Mas o impacto é grande: a partir de agora, toda mídia que você envia para o Google: fotos do Google Lens, áudios de comandos de voz, gravações do Tradutor, pode ser usada para treinar modelos de inteligência artificial.
E o pior: você está automaticamente optado a participar. Para sair, precisa saber onde clicar.
Se você usa Google no Brasil, esse artigo é para você.
O que mudou exatamente
O Google introduziu duas novas configurações: Search Services History e Personalized Recommendations. Ambas vêm ativadas por padrão.
A primeira é a mais crítica. Ela salva as mídias que você envia para qualquer serviço de busca do Google: Search, Maps, Shopping, Flights, Hotels, Translate e News, e usa esse material para “desenvolver e melhorar serviços e tecnologias do Google, incluindo modelos de IA e medidas de segurança”.
A novidade não é o Google coletar dados. A novidade é que agora suas fotos, áudios e vídeos viram explicitamente combustível de treinamento de IA. Antes essa coleta era mais restrita aos dados de navegação e histórico de pesquisa.
O que isso significa no seu dia a dia
Vamos traduzir em exemplos práticos:
- Você abre o Google Lens, tira uma foto de um produto para buscar onde comprar. Aquela imagem agora pode ser usada para treinar IA.
- Você usa o recurso Search Live para pesquisar por voz no app do Google. O áudio do seu comando vira dado de treino.
- Você abre o Google Tradutor e usa o recurso de fala para praticar pronúncia. A gravação também pode ser armazenada e usada para IA.
Isso não é teoria da conspiração. O próprio Google confirmou no e-mail enviado aos usuários: “Assim como seu Search Services History, suas mídias salvas também são usadas para desenvolver e melhorar serviços e tecnologias do Google, incluindo modelos de IA e medidas de segurança.”
O cenário brasileiro
Essa mudança é especialmente relevante no Brasil.
O brasileiro é um dos usuários mais intensos de serviços Google no mundo. Segundo dados da Statista, o Google detém mais de 90% do mercado de busca no Brasil. O WhatsApp e o Google são, de longe, os aplicativos mais usados no país.
A maioria das pessoas não lê e-mails de atualização de privacidade. O e-mail que o Google enviou em junho provavelmente foi parar na caixa de spam ou foi ignorado como “mais um termo de serviço”. A consequência? Brasileiros estão optados sem saber.
E aqui mora um ponto delicado: o Brasil tem a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que exige consentimento explícito para tratamento de dados pessoais. Será que essa mudança, que opta o usuário automaticamente, está em conformidade com a lei? A discussão promete chegar à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados).
Como desativar (guia prático)
A boa notícia é que você pode desativar. Os passos são simples, mas o Google não facilita encontrar as opções.
- Acesse a página myaccount.google.com
- Vá em “Dados e privacidade” > “Search Services History”
- Desmarque a opção “Save Media”, que fica separada da opção principal “Search Services History”
- Você também pode desativar o “Search Services Personalization” se quiser limitar ainda mais
Para controle adicional, você pode configurar a auto-exclusão dos dados salvos: 3 meses, 18 meses ou 36 meses.
Para ir mais fundo, acesse a página de Web & App Activity e revise as outras configurações de privacidade.
Uma tendência maior
O Google não está sozinho nessa.
A Meta também treina IA com fotos de usuários do Instagram e Facebook e com conteúdo gravado pelos óculos inteligentes Ray-Ban Meta. A indústria de tecnologia está migrando de um modelo que dependia de dados raspados da web para um modelo que coleta dados diretamente do uso dos serviços.
O que muda é a escala. O Google processa bilhões de consultas por dia. Cada imagem de Lens, cada áudio de voz, cada tradução falada é um ponto de dado que antes não era explicitamente usado para treinar IA — e agora é.
O que você precisa fazer hoje
Você não precisa abandonar o Google. Mas precisa saber que essa mudança existe e tomar uma decisão consciente.
Se você se importa com privacidade, vale a pena passar 5 minutos revisando as configurações. Se você é desenvolvedor ou trabalha com tecnologia, a discussão vai além: envolve transparência, consentimento e o futuro dos dados de treinamento de IA.
O Runzos já publicou um guia completo de APIs de IA para o desenvolvedor brasileiro que aborda o ecossistema de modelos e as implicações de privacidade. Vale a leitura para entender o cenário como um todo.
A lição aqui é simples: no mundo da IA, seus dados são o produto. Saber onde e como eles são usados não é mais opcional — é essencial.














