Anthropic instalou rastreador secreto em usuários chineses — e a hipocrisia expõe todas as big techs
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Maicon Ramos
- Anthropic, big tech, China, Claude, LGPD, vigilância
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Resumo: Pesquisador descobriu código oculto no Claude Code que monitorava secretamente usuários chineses. Anthropic confirmou o “experimento”, mas o caso expõe o contraste entre seu discurso ético e a prática de vigilância, acendendo alerta para usuários brasileiros.
O rastreador secreto da Anthropic veio à tona de forma explosiva. Um pesquisador conhecido como “Thereallo” descobriu código escondido no Claude Code, ferramenta de programação assistida por IA da empresa, que monitorava secretamente usuários na China. A revelação levanta perguntas incômodas não só sobre a Anthropic, mas sobre o que todas as big techs podem estar fazendo com dados de usuários ao redor do mundo.
A descoberta foi feita por meio de esteganografia de prompt: o código estava oculto, disfarçado entre instruções legítimas do Claude Code. Quando acionado, o tracker enviava para a Anthropic informações como timezone do usuário, uso de proxy e potencial conexão com laboratórios chineses de IA.
A empresa não negou. Thariq Shihipar, engenheiro da Anthropic, confirmou publicamente que o código era real. Segundo ele, o tracker era um “experimento” rodando desde março de 2026 com o objetivo declarado de prevenir abuso e destilação de modelos, uma prática em que empresas clonam IAs proprietárias sem autorização.
Mas a justificativa não convenceu a comunidade de tecnologia.
O contraste que expõe a moral seletiva
O caso é especialmente controverso porque a Anthropic construiu parte relevante de sua reputação em torno de uma postura ética rígida. A empresa processou o governo Trump por se recusar a usar Claude para vigilância de cidadãos americanos. Ao mesmo tempo, monitorava secretamente usuários chineses.
O contraste não passou despercebido. A mensagem que ficou foi: “não vigiamos americanos por princípio, mas vigiamos chineses por ‘experimento’”.
A Alibaba, gigante chinesa de tecnologia, baniu o Claude Code imediatamente após a descoberta. O caso foi amplamente coberto pelo The Next Web e pelo Washington Post, que também revelou que revendedores não autorizados vendiam acesso aos modelos da Anthropic por cifras mensais, o que indica que o mercado paralelo de IA na China já é uma realidade.
O contexto geopolítico da IA
A revelação acontece em meio a uma escalada na rivalidade tecnológica entre EUA e China. A Anthropic tem pressionado o governo americano por controles de exportação mais rígidos contra a destilação de modelos por empresas chinesas.
Enquanto isso, a Zhipu AI, empresa chinesa de IA, lançou o modelo GLM-5.2, que, segundo benchmarks independentes, superou o Claude Opus 4.8 na identificação de vulnerabilidades de software, um dado que só acirra a competição.
A leitura do Runzos é direta: a destilação de modelos é um problema real para empresas de IA. Mas a solução adotada pela Anthropic — vigilância secreta sem consentimento — troca um problema técnico por uma crise de confiança.
O que isso significa para o Brasil
O caso expõe uma hipocrisia que não é só da Anthropic: é estrutural nas big techs. Se uma empresa conhecida por seu discurso ético recorreu a vigilância não declarada, o que fazem as outras?
Para o usuário brasileiro, o alerta é ainda mais relevante. O Brasil tem a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), mas a aplicação prática da lei enfrenta desafios enormes, especialmente quando envolve empresas estrangeiras. Ferramentas de IA como Claude, ChatGPT, Gemini e Copilot processam dados de usuários brasileiros em servidores fora do país, sob jurisdições diferentes.
A pergunta que fica é: quem garante que seus dados não estão sendo usados para monitoramento não declarado?
A China lidera o desenvolvimento de IA aberta e modelos que desafiam os gigantes americanos — um cenário que exploramos em detalhes no artigo sobre como a China está transformando o mercado de IA. O tracker secreto da Anthropic mostra que, na guerra tecnológica, o usuário final raramente é protegido.
O que vem a seguir
A Anthropic já removeu o código após a exposição. O dano à reputação, no entanto, está feito. O caso serve como alerta e deve alimentar debates sobre regulação de IA em diversos países, inclusive no Brasil, onde o projeto de lei de inteligência artificial ainda tramita no Congresso.














