“Jefferson, Franklin e Adams no Google Meet: o comercial de IA que irritou meio mundo”
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Maicon Ramos
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Resumo: O comercial da Google no 4 de Julho mostra os Founding Fathers usando Gemini e Google Workspace para redigir a Declaração de Independência. A reação negativa foi forte, com o The Verge chamando de “infuriante”. O caso reacende o debate sobre IA versus criatividade humana no Brasil.
No Dia da Independência dos Estados Unidos (04/07/2026), a Google resolveu fazer uma homenagem criativa: colocou Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e John Adams (os Founding Fathers) usando Gemini IA e Google Workspace para redigir a Declaração de Independência. A tagline: “Group project, but make it 1776”.
O resultado? A internet inteira torceu o nariz. O comercial foi chamado de “infuriante” pelo The Verge, “sem noção” pelos usuários do Reddit, e reacendeu um debate que já estava aceso: até onde a IA generativa deve invadir espaços de criação humana?
Vou contar o que aconteceu, por que a reação foi tão forte, e o que isso tem a ver com o Brasil.
Cena a cena: o que a Google mostrou
O comercial de 1 minuto mostra os três pais fundadores sentados em uma sala colonial, mas cada um com um notebook e smartphones modernos numa mesa de madeira rústica. A estética tem um brilho artificial. O TechCrunch descreveu como “uncanny glow of AI-generated video”, meio que proposital, num tom “tongue-in-cheek”.
As cenas são uma sátira do trabalho remoto moderno:
- Benjamin Franklin manda um textão no Google Messages cobrando de Jefferson o rascunho da Declaração
- Jefferson escreve no Google Docs enquanto Franklin e Adams fazem edições no modo “sugestão”, aquelas linhas verdes e vermelhas que todo mundo conhece
- Reunião no Google Meet com as câmeras desligadas (clássico)
- Jefferson usa o “help me visualize” do Gemini para testar opções de animais para o selo dos EUA — o resultado é um peru chamado “Nano Banana”
- Os Founders perguntam ao Gemini se devem dar “edit access” ao Rei George III
- Tudo termina com a e-signature da Declaração
A intenção era claramente satírica e divertida. Mas não foi o que aconteceu.
A recepção: The Verge chamou de “infuriante”
A crítica mais contundente veio do The Verge. O editorial classificou o comercial como “ill-advised, corny, and just plain dumb”, ou seja, mal-pensado, piegas e simplesmente idiota. A palavra “infuriating” (infuriante) foi usada explicitamente.
O historiador Angus Johnston, da CUNY, foi ainda mais direto: “É impossível argumentar que a IA é uma ferramenta útil para organização política, escrita ou colaboração humana depois de assistir a isso.” Pesado.
No Reddit (r/technology) e no Threads, as reações foram maciçamente negativas. Dror (carnage4life) resumiu em uma palavra: “Gross.”
A comparação com o comercial anterior polêmico da Google é inevitável: aquele em que um pai usa o Gemini para escrever uma carta para a filha. A Google parece ter um padrão: humanizar a IA generativa em momentos solenes, e o tiro sai pela culatra.
O contexto Brasil: Google é amada, mas isso pegaria mal aqui também
A Google é uma das marcas mais amadas do Brasil. O Google Workspace (antigo G Suite) é onipresente em empresas brasileiras, o Android domina o mercado mobile, e o YouTube é a segunda maior rede social do país. O brasileiro médio confia na Google, usa os produtos dela no dia a dia e não tem a mesma desconfiança visceral que o europeu ou americano tem em relação ao poder da big tech.
Mas esse comercial toca em um nervo sensível que também dói no Brasil: o medo da IA substituir a criatividade humana.
Não é à toa que o Sindicato dos Roteiristas dos EUA (WGA) passou meses em greve em 2023 exigindo limites para o uso de IA na escrita criativa. No Brasil, artistas, designers e redatores vivem a mesma ansiedade. Um comercial que mostra figuras históricas delegando a escrita de um documento fundamental da democracia moderna para uma IA não é só de mau gosto: é um sinal preocupante de como a Google enxerga o papel da IA na criação.
O brasileiro médio já desconfia de IA em atendimento ao cliente e na produção de conteúdo. Ver os Founding Fathers usando Gemini como num trabalho de faculdade soa mais distopia do que piada, mesmo aqui.
Minha análise: o erro não foi técnico, foi de narrativa
A tecnologia do Gemini é impressionante. E a Google poderia ter mostrado casos de uso reais e úteis: um médico usando IA para analisar exames, um professor criando material didático personalizado, um pequeno empresário automatizando tarefas repetitivas. Em vez disso, escolheu mostrar a IA “reescrevendo” a história.
O problema central é de framing.
A narrativa de “IA ajudando a criar algo histórico” soa como uma substituição, não como uma ferramenta de apoio. E num momento em que o mercado de trabalho criativo está encolhendo e artistas reais estão perdendo espaço, fazer piada com isso mostra um distanciamento preocupante da realidade.
É improvável que a Google retire o comercial do ar. Ele vai circular, gerar engajamento e cumprir seu papel de marketing. Mas a um custo de credibilidade que, para uma marca que sempre prezou pela imagem “cool”, pode ser mais alto do que parece.
O que podemos aprender com isso
A história desse comercial reforça algo que venho observando: a IA generativa é uma ferramenta incrível para produtividade e automação de tarefas repetitivas, mas o valor real está em aumentar a capacidade humana, não em substituir a criatividade. É a diferença entre usar IA para escrever um e-mail burocrático (ganho de tempo real) e usar IA para “reescrever” a Declaração de Independência (desrespeito histórico e cultural).
Se você está explorando o que a IA generativa pode fazer na prática (APIs, automações, desenvolvimento) sem cair nessa armadilha de narrativa, vale a pena conferir nosso guia completo de APIs de IA para desenvolvedores brasileiros. Lá mostramos casos reais de uso, sem hype, sem forçar a barra.
A Google errou o tom. Mas a tecnologia por trás do Gemini continua sendo útil, desde que a gente saiba onde colocar o limite.














