Apple gastou bilhões no Apple Car e tudo que sobrou foi o chip do seu iPhone

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Imagina passar mais de uma década e gastar bilhões de dólares num projeto que nunca viu a luz do dia. Parece desperdício, certo? No caso da Apple, não foi bem assim.

O Apple Car foi cancelado — isso todo mundo sabe. O que pouca gente conhece é a história do chip que a Apple projetou para aquele carro. Ele nunca foi finalizado para o veículo, mas o trabalho nele gerou algo que está no bolso (ou na mesa) de milhões de brasileiros hoje: o Neural Engine.

O chip que virou motor de IA

A história começa lá atrás, por volta de 2014, quando a Apple deu início ao Projeto Titan — o codinome do carro autônomo. A equipe de engenharia precisava de um processador capaz de rodar modelos de inteligência artificial em tempo real dentro do veículo: processar imagens das câmeras, reconhecer objetos, tomar decisões de direção. Era um desafio de processamento que poucos chips da época conseguiam resolver.

Esse processador nunca chegou a ser finalizado para o Apple Car. O projeto foi oficialmente cancelado, e o chip específico do veículo nunca viu produção. Mas o aprendizado e a arquitetura desenvolvida não foram para o lixo. A Apple pegou todo aquele trabalho e o transformou no Neural Engine, que estreou em 2017 no chip A11 Bionic do iPhone X.

Na época, o Neural Engine era modesto: apenas dois núcleos dedicados, capazes de processar 600 bilhões de operações por segundo. Era usado para coisas que pareciam mais “futurismo” do que necessidade real: FaceID, Animoji, realidade aumentada.

De lá para cá, a evolução foi absurda. O Neural Engine de hoje tem 16 núcleos e processa 35 trilhões de operações por segundo — um salto de mais de 58 vezes em menos de uma década. Ele é o coração do processamento de IA em todos os dispositivos da Apple: iPhone, iPad, Mac e Apple Watch.

O presente e o futuro

Pule para 2026. O Neural Engine já não é mais um coadjuvante. Ele processa tudo: reconhecimento facial, edição de fotos, tradução em tempo real, sugestões da Siri, modelos de machine learning rodando localmente no dispositivo. E tudo isso sem depender da nuvem — o que significa mais privacidade e menos latência.

A Apple não parou por aí. A empresa está acelerando o desenvolvimento do M7 Ultra, um chip que suporta até 1,5 TB de RAM e mira o mercado de servidores. O mesmo DNA do Neural Engine estará lá, adaptado para cargas de trabalho corporativas.

A informação é do jornalista Mark Gurman, da Bloomberg (Power On), e foi corroborada por Digital Trends, AppleInsider e MacOSCompatible.

Recentemente, a Apple também renovou a Siri com inteligência artificial do Google Gemini e ChatGPT — mais um movimento que mostra como a empresa está levando a IA a sério em todo o ecossistema.

O que isso tem a ver com o Brasil?

Muita coisa. A Apple domina o mercado de smartphones premium no Brasil com folga. Milhões de iPhones vendidos no país — do iPhone X aos modelos mais recentes — carregam o Neural Engine dentro do processador.

É interessante pensar nisso: o país tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo sobre eletrônicos, e ainda assim o iPhone é um dos celulares mais desejados. Cada iPhone vendido por aqui traz, dentro do chip, uma tecnologia que nasceu de um projeto automotivo que nunca saiu do papel.

Cada vez que alguém usa o FaceID para desbloquear o celular no trânsito, ou edita uma foto com o iPhone, ou usa a Siri para mandar uma mensagem sem tirar as mãos do volante, está usando o legado do Apple Car.

Lição de inovação

A história do Neural Engine é um caso clássico de inovação não-linear. A Apple não “desperdiçou” dinheiro no Apple Car — ela investiu em pesquisa que gerou frutos em uma área completamente diferente.

O fracasso de um projeto multimilionário resultou numa tecnologia que processa mais operações de IA por segundo do que a maioria dos PCs por aí. E que está na mão de milhões de pessoas no Brasil e no mundo.

Nem todo fracasso é realmente um fracasso. Às vezes, ele só estava no lugar errado na hora errada.

Evolução do Neural Engine — do Apple Car ao iPhone
O Neural Engine evoluiu de 2 núcleos (600 bilhões de operações/s) para 16 núcleos (35 trilhões de operações/s) em menos de uma década — herança direta do Apple Car
Foto de Maicon Ramos

Maicon Ramos

Infoprodutor e especialista em automações de Marketing, fundador do Automação sem Limites, uma comunidade para ajudar empreendedores e startup.